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Sem medo de aprender

Ricardo Natale

Esta semana resolvi fazer uma Carta diferente. Fiquei bastante impactado – e animado – com a conversa que tive com o Bruno Stefani, diretor global de Inovação da AB InBev, no Innovation Lab, evento do Experience Club que fizemos na quinta-feira.

Inovação é uma necessidade absoluta no mundo atual. É o motor que move o mundo e o combustível das empresas que se mantém relevantes.

E a AB InBev mostrou que sabe disso. A gigante mundial está se transformando, de uma fabricante de cerveja em uma plataforma. E sem vergonha de dizer que não sabe e que precisa aprender para continuar liderando como fez nas últimas décadas.

Acompanhe os principais momentos da nossa conversa no palco do Innovation Lab.

Como vocês estão tratando a inovação na AV InBev nos últimos tempos? Faz uma linha do tempo da inovação na empresa.

Nos últimos tempos a gente entendeu que precisava estudar e ser muito humilde de falar: eu perdi o bonde da tecnologia e tenho que fechar esse gap.

E não é só a Ambev. Acho que todas as grandes empresas hoje no Brasil estudam pouco. A gente partiu da prerrogativa de que a gente conhecia o setor, por ser líder, por ter um share altíssimo, e achar que sabia o que o cliente queria. E quando você começa a olhar esse ecossistema, você fala: eu não sei, eu preciso sentar pra aprender.

Em 2018, todo o board da companhia sentou no Cubo e tivemos dois dias de aula sobre transformação digital, IA, futuros. E em 2019 fizemos a nossa software house, que virou a Ambev Tech. No ano seguinte, já com desenvolvedores dentro de casa, estruturamos uma área para isso, porque os problemas são complexos.

Deixamos de ser uma empresa que achava que entendia de tudo pra ser uma empresa que aprende tudo. Isso mudou até nos detalhes. Todo ano temos uma convenção de vendas e recebemos em casa todos os produtos que vamos lançar naquele ano. Faz uns dois ou três anos que vêm alguns livros junto.

A gente começou a estudar.

Como vocês usam inteligência artificial, big data? Como constroem essa tecnologia, como colocam a inovação dentro de uma organização já tão estruturada?

A gente parte literalmente do cliente. Já ouviu isso? Um milhão de vezes. Colocar o cliente  no centro é bonito quando você escreve na parede, mas é muito melhor quando você faz.

O que fizemos nos últimos anos é literalmente deixar de vender aquelas marcas que queríamos vender e testar com o consumidor final o que ele queria. Serve pro Zé Delivery quando a gente fala de consumidor final, serve pro BEES quando a gente fala do dono de bar e de restaurante.

A partir daí começamos a usar a tecnologia para ouvir o que eles estão falando. Seja pra ter esses dados dentro de casa, seja pra ter insights em cima deles. E aí eu vou moldando a companhia conforme o que o consumidor quer.

É supersimples de explicar. Executar é dificílimo e vai demorar. Mas não existe a opção de não fazer. As startups crescem muito rápido porque elas resolvem um problema do consumidor muito bem.

Toda grande empresa tem uma dificuldade gigante de fazer isso, porque tem uma série de áreas, uma série de legados, uma série de problemas.

Mas você não tem opção e nos próximos cinco, dez anos, essa janela vai fechar.

Vai chegar uma empresa no seu setor que você não estava nem olhando e vai resolver o problema do seu cliente. E nesse momento você ficou insignificante. Não vai falir, não vai sumir, nada disso. Mas terá pouca margem de crescimento. As empresas hoje que não se reinventarem, automaticamente estão morrendo.

Fala um pouco mais do Zé Delivery, do BEES e também do ZX. Vocês investem, compram startups?

O Zé começou em 2015 desse entendimento de que a gente não conhecia o consumidor final. Eu conhecia muito bem o dono do bar, mas não conhecia quem consome os meus produtos. E aí resolvemos entregar na casa das pessoas.

Falando aqui é bonito, é tranquilo. Mas era 2015 e eu estava falando para o VP de vendas que eu ia tirar pessoas do bar. É literalmente você tentar matar o seu negócio. Fizemos porque alguém ia fazer. E fomos entendendo que era uma oportunidade de conhecer o consumidor final e ter mais um canal de entrega.

O BEES, que é o nosso marketplace B2B, é muito mais uma tentativa de servir o dono do bar. Como plataforma, eu consigo levar não só a cerveja, o refrigerante, a água, mas também  Brazil Foods, Pão de Açúcar, energia. Eu estou literalmente ajudando.

Com isso, nossa companhia, que vocês conhecem como a cervejaria Ambev, vira uma plataforma de negócio. E aí eu deixo de olhar o setor para olhar o ecossistema. Entender que o ecossistema precisa ganhar pra você ganhar. Não é sobre a Ambev ter uma fatia maior do bolo. É sobre construir um bolo muito maior.

A grande empresa tem um excesso gigante de comando e controle. É difícil você pensar que a inovação é contínua. E eu acho que essa falta de ter feito o dever de casa, de ter estudado, faz com que o executivo brasileiro esteja um pouco perdido ou com medo, ou as duas coisas. E tudo bem estar com medo, tudo bem estar perdido.

Você acha que eu sei todos os projetos que eu começo o que que vai dar? Que quando eu coloco dinheiro pra fazer entrega por drone eu sei exatamente o que vai sair do outro lado? Eu não faço a menor ideia. Mas não tem problema. Porque a gente acaba fazendo muito negócio com startup e é o portfólio que paga a conta.

Eu não tenho que olhar pro meu concorrente, eu tenho que olhar para o ecossistema e falar: onde tem uma necessidade do consumidor que eu vou resolver? E aí eu vou fazer na Ambev.

A Ambev fez um processo de seleção no metaverso, foi pioneira nisso no Brasil. Como é que foi?

Foi uma experiência. E precisamos ser transparentes com essas pessoas. É ruim quando você recebe só um e-mail ali falando você não foi aprovado, e não sabe porquê. Quando a gente coloca todo mundo num game a gente dá acesso e começa a trazer diversidade, inclusão.

Tem um game que você vai aprendendo, vai passando de fase e se você não é aprovado recebe um e-mail explicando porque e dando sugestões de livro, vídeo pra ver no YouTube, eventos e orientando a voltar daqui a seis meses.

Não é sobre selecionar os melhores talentos, é pensar no ecossistema de candidatos ao programa de trainee e melhorar essas pessoas. É óbvio que a gente ganha, que a gente está atrás dos melhores talentos. Mas por que não fazer isso de uma forma muito mais colaborativa e aberta com o ecossistema?

Eu aprendi isso com startup. A área de RH está fazendo isso com os candidatos. A partir do momento que a gente descentraliza a inovação e coloca a tecnologia no meio pra Ambev inovar e não a minha área inovar, temos uma companhia que cresce cada vez mais e é isso que a gente quer.

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