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“O número de empresas que se compromete a zerar emissões ainda é muito pequeno.”

Carlos Nobre

Para o climatologista Carlos Nobre, da USP, participação do setor privado em ações práticas de mitigação, embora tenha crescido, ainda é tímida  

Com experiência e autoridade de quem participa de cúpulas do clima desde 2005, o climatologista Carlos Nobre, da USP, ficou frustrado com os resultados práticos obtidos na COP 26, realizada em Glasgow. 

O professor tinha a expectativa de que os cerca de 120 líderes reunidos pudessem avançar e trazer à tona mensagens claras, sobretudo em dois temas interligados: a necessidade de não deixar a temperatura global ultrapassar 1,5 grau centígrado e o financiamento, por parte dos países ricos, para viabilizar a transição, nas nações pobres, do uso de combustíveis fósseis para uma matriz energética limpa.   

“Praticamente não se falou em dinheiro para isso. Só cerca de US$ 20 bilhões serão destinados a ações de adaptação em países pobres. Isso é, realmente, um valor desprezível no sentido de tornar as populações desses países mais resilientes”, critica, em entrevista ao Experience Club.

Não que não tenham acontecido, segundo ele, avanços no encontro. Mas, ainda assim, eles foram modestos. 

No campo positivo, o especialista menciona, além do acordo que abre o caminho para a tão aguardada regulamentação do mercado de crédito de carbono, o fato de que empresas brasileiras passaram a assumir compromissos. 

“É fundamental que o setor empresarial vá nessa direção. Mas o número de empresas que se compromete a zerar emissões ainda é muito pequeno”, afirma. 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

1-Frustração com resultados 

“Esperava mais da COP. O Acordo de Paris foi uma COP considerada de mais sucesso. Foi quando se buscou um compromisso, ainda que voluntário, significativo. Se bateu o martelo de que não poderíamos, em hipótese alguma, deixar o planeta exceder dois graus, buscando 1,5 grau (centígrado).” 

“O Acordo de Paris já chamava os países para que, em 2020, trouxessem novas e mais ambiciosas metas. A pandemia acabou adiando a cúpula. A COP 26 já começou com esse desafio.” 

“No último dia, foi tirada a frase “eliminação do carvão” e colocada a frase “redução do consumo do carvão.” 

2 – Financiamento aos países pobres 

“A COP só cria um grupo para continuar estudando como fazer que os países ricos recompensem os pobres e vulneráveis pelas perdas e danos que já ocorrem com as mudanças climáticas. Esse foi um atraso considerável.” 

“Os cálculos são de que se precise de US$ 1 trilhão por ano para rapidamente conseguir uma redução de emissões.” 

“Essa COP não deixou nenhum sinal claro de que nós conseguiremos entrar nessa trajetória requerida para manter as temperaturas abaixo de 1,5 grau.” 

3 – Contribuição do setor privado 

“A maior parte das emissões está ligada a setores empresariais. Quase 70% das emissões vêm da geração de energia, e a maior parte disso vem de empresas privadas.” 

“O envolvimento do setor empresarial no atingimento de metas do Acordo de Paris, e agora na COP 26, para reduzir as emissões, é essencial.” 

“É fundamental que o setor empresarial passe a assumir compromissos concretos.” 

4 – Setor financeiro um passo à frente 

“O setor empresarial financeiro assumiu compromissos, ainda que genéricos, com fundos de investimento e de pensão que representam US$ 130 trilhões, manifestando o desejo de que uma parte substancial de seus investimentos financie empresas e iniciativas sustentáveis.” 

“No caso do Brasil e dos Estados Unidos na Era Trump, algumas empresas que necessitam atingir os mercados globais assumiram compromissos, na contramão dos governos.” 

5 – Caminho aberto para o mercado de crédito de carbono 

“Pela primeira vez, o Brasil e outros países não se opuseram ao tema. E se conseguiu, pelo menos, bater o martelo para abrir caminho para a regulamentação desse mercado.” 

“A COP deu o caminho a seguir nesse ponto. Talvez já na COP 27, no Egito, se tenha essa regulamentação muito clara de todas as regras.”  

 

Texto: Luciano Feltrin

Imagem: arquivo pessoal Carlos Nobre

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