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“O desafio para 2022 é garantir que todas as nossas startups estejam capitalizadas”

Para Guilherme Penna, do Global Founders Capital na América Latina, que tem investimentos em mais de 70 empresas na região, é importante alertar os fundadores para a possibilidade de uma recessão

Fique ligado:

1 – Depois de boom de investimentos em 2021, startups da região devem encarar perda de apetite dos grandes fundos internacionais neste momento, diz principal do GFC.

2 – Incertezas no cenário global apontam mais conservadorismo dos investidores e tendência em focar mais em ajustes de valuation e em fusões e aquisições.

3 – Investimentos em startups não vão parar, mas a lição de casa para fundadores é agir com cautela, manter o caixa e pensar em crescimento a longo prazo.

“É um trabalho de alertar os fundadores para a possibilidade de uma recessão, porque muitas vezes eles estão empolgados para crescer. Nosso papel é ajudá-los nisso, mas sem loucuras”, diz Guilherme Penna, principal do GFC

A alta dos juros para conter a inflação nos Estados Unidos fez com que o mercado passasse a considerar com mais atenção cenários futuros de recessão. Um dos reflexos disso tem sido a redução do apetite de fundos de investimentos, em relação a 2021, quando o volume de aportes em startups brasileiras alcançou o recorde de US$ 9,4 bilhões – segundo dados da Distrito.

“No ano passado, os investidores mal faziam o valuation e já investiam”, afirma Guilherme Penna, principal do Global Founders Capital (GFC) na América Latina. “Este ano, ainda existe apetite no mercado. Mas o FOMO (medo de ficar de fora, na sigla em inglês), deu uma diminuída”.

A guerra na Ucrânia é outro fator de incerteza. Ninguém sabe ao certo quais serão os reflexos sobre o setor de inovação e tecnologia da América Latina, no médio e no longo prazo. Penna diz que hoje há fundos 100% focados na região que estão capitalizados. Mas, sem os fundos maiores, para dar sequência às rodas de investimento, pode haver problemas, para a realização de lucros.

“Grandes fundos tendem a ser mais agressivos em negócios e regiões que dominam muito bem. Em momentos de recessão, eles se voltam para o que conhecem melhor. E o que conhecem mais são os Estados Unidos e a Europa”, comenta Penna, frisando que está é sua opinião pessoal e que há muitas divergências sobre o assunto no mercado.

A estratégia de atuação do GFC na região, porém, não deve mudar, afirma o executivo. Com investimentos em mais de 70 startups na América Latina, o fundo chegou timidamente à região em 2016 e, a partir de 2019, passou a investir mais agressivamente, principalmente no Brasil. De lá para cá, investiu pouco mais de US$ 220 milhões, privilegiando projetos com fundadores muito ambiciosos ou experientes, em mercados grandes e com forte potencial de escala, afirma Penna.

O que muda agora, afirma, é a preocupação com o caixa das empresas investidas. “O desafio para 2022 é garantir que todas as nossas startups estejam capitalizadas. O que já está acontecendo”, diz.

Em entrevista ao [EXP], Guilherme Penna, principal do Global Founders Capital na América Latina, fundo com mais de US$ 5 bilhões em ativos sob gestão e presente em mais de 20 países, avalia o mercado regional e as preocupações que devem permear os fundadores num cenário de retração.

Investimento agnóstico

O GFC costuma manter em sigilo os investimentos que faz. Mas não faz segredo dos que já foram anunciados à imprensa pelas startups. A lista inclui nomes como brasileiras como Beetech, Kovi e Nomad; as colombianas Bold (fintech), Melonn (mobilidade) e Simetrik (Saas); as mexicanas Zubale, Wonder Brands e Clara; a chilena Grupo Central; a peruana Favo e a salvadorenha CuboPago.

A seleção das startups na região é feita por uma equipe formada, além de Penna, por Alex Anton, Catarina C., Fabrício Pettená e Bruno Rosolini, no Brasil; Facundo Tosi, na Argentina; Manolo Fernandez, no México; e Sebastian Waldmann, entre Chile e Colômbia. Quase todos têm passagens por startups latino-americanas importantes, como Justo, Rappi, 99, Grow, Móvile e iFood.

Dos 40 investimentos conhecidos do fundo na região, a maioria são fintechs (15). Mas Penna diz que isso se deve mais ao fato de muitas fintechs atenderem ao perfil buscado pela empresa. Em termos setoriais, “o GFC é agnóstico e extremamente flexível”, afirma. Tem no portfólio também startups de mobilidade, marketplaces, edtechs, SaaS, e-commerces, proptechs e healthtechs, entre outras.

Da mesma forma, o fundo não tem uma meta em número de empresas para investir no ano.

A rigidez é maior em relação ao momento de entrada nas empresas. Na grande maioria dos casos, os aportes feitos pelo GFC são pre-seed (pre-semente) ou seed (semente). “Entendemos que este é o momento em que conseguimos ajudar mais”, afirma Penna. “Trabalhamos muito com os fundadores em situações não triviais, como conflitos entre os sócios e a perda do principal cliente, por exemplo, acalmando, quase como psicólogos. Também ajudamos muito a ajustar os fundamentos, antes de escalar. Discutimos seriamente o produto com os fundadores, ajudamos muito em contratações”.

Houve um caso em que o fundo investiu US$ 25 milhões em uma empresa da América Latina. Mas foi exceção, diz Penna. Nos dois últimos aportes que liderou, o fundo investiu US$ 1,5 milhão e US$ 3 milhões. Em outros três, liderados por outros fundos, colocou entre US$ 500 mil e US$ 1,5 milhão. “Em geral, investimos entre US$ 500 mil e US$ 2 milhões”, afirma o executivo. “E temos coinvestimentos com quase todos os fundos da região. O que ajuda nas fases seguintes dos negócios, porque são mais fundos envolvidos, mais investidores anjos colaborando com a gestão”.

Cobertura global

O fundo também já teve algumas saídas na América Latina. A mais recente, divulgada, foi a da Remessas Online — a startup de remessas internacionais foi comprada pelo Ebanx por R$ 1,2 bilhão, no final do ano passado. Mas a GFC não dá muito mais detalhes do panorama geral do portfólio.

Criado em 2013 pelos irmãos Oliver e Marc Samwer, pela alemã Rocket Internet e por Fabian Siegel, um dos fundadores da startup de delivery Hero, o GFC é hoje conhecido por ter uma presença global forte, com mais de US$ 5 bilhões em ativos sob gestão, através de braços e sócios locais em cerca de 20 países. “Cobrimos realmente o mundo todo”, afirma Penna.

Momento econômico

Apesar do momento econômico menos favorável aos investimentos, o executivo brasileiro afirma que ainda há muitos fundos querendo investir na América Latina e que a região nunca contou com executivos e empreendedores tão experientes e qualificados. “Talvez os fundos façam ajustes de valuation. Talvez este e o próximo ano sejam mais fortes em fusões e aquisições. Mas os investimentos em startups não vão parar, porque são investimentos de longo prazo”, conclui Penna.

Imagens: Divulgação/Stock

Texto: Dubes Sônego

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