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“O Brasil vai caminhar para o trabalho temporário em níveis de gestão”

Fabio Battaglia, CEO da Randstad, líder global em soluções de RH, destaca a importância de modelos flexíveis para empresas e colaboradores

Apesar de ainda pouco utilizados no Brasil, os formatos de contratação mais flexíveis vieram para ficar e têm conquistado espaço gradualmente. Segundo Fabio Battaglia, CEO da Randstad no Brasil, 2022 será um ano de continuidade e consolidação de movimentos que eclodiram com a pandemia e deverão amadurecer no país, como os contratos temporários.  

Dados da Associação Brasileira de Trabalho Temporário (Asserttem) mostram aumento de 31,5% em 2021 nessa modalidade, com 1,7 milhão de admissões de janeiro a agosto de 2021, diante de 1,3 milhões no mesmo período de 2020.  

Com isso, o Brasil tem cerca de 5% dos contratos em mão de obra temporário, grande parte concentrados em funções mais operacionais na indústria e no varejo de final de ano. Mas com a mudança de mentalidade das empresas, as contratações estão se ampliando para funções administrativas e técnicas. O próximo passo é buscar níveis gerenciais, como já acontece em países como Espanha, Holanda e França, segundo Fabio Battaglia, CEO da Randstad Brasil, consultoria presente em 38 países e líder global em soluções em recursos humanos.  

“Esses países já começam a olhar o trabalho temporário de uma forma mais abrangente na pirâmide corporativa, indo para níveis, inclusive, gerenciais, de coordenação e de gestão. É algo que a cultura europeia absorveu bem. O Brasil vai caminhar para isso. Temos projetos específicos de curto prazo para profissionais de nível técnico mais alto, para gestores e coordenadores, mas é algo que, culturalmente, precisa amadurecer no mercado brasileiro”, analisa Fabio Battaglia, executivo com longa experiência em consultorias, e passagens pela McKinsey e A.T. Kearney, além de companhias tradicionais, como BRF. 

A flexibilidade do modelo, que permite mobilizar o quadro de pessoas de acordo com a demanda, com mais agilidade e competitividade para as empresas, também oferece vantagens para os colaboradores. O contrato temporário traz a oportunidade de pessoas serem efetivadas após mostrarem capacidade de adaptação e rápido aprendizado, sem precisarem ser especialistas ou ter experiências prévias, por exemplo, com todos os direitos e benefícios da função. 

“A própria empresa se torna uma desenvolvedora de seus talentos. É uma solução bastante democrática para profissionais em início de carreira, para jovens profissionais, ou para quem tem qualificação técnica relativamente baixa”, explica Battaglia. 

Grande despertar  

Outra tendência que o CEO da Randstad Brasil aponta para a área de Recursos Humanos é o fenômeno que ganhou o nome de ‘great enlightenment’ – “o grande despertar”, em tradução livre – detectado no mais recente estudo semestral Workmonitor, da Randstad global, feito em mais de 34 países, com mais de 27 mil pessoas entrevistadas.  

O levantamento mostra que trabalhadores de todo o mundo estão mais esclarecidos sobre o que querem de sua vida profissional e como equilibrar trabalho e qualidade de vida. No Brasil, o movimento é ainda mais forte: 92% dos trabalhadores brasileiros anseiam por formatos de trabalho e carreiras mais flexíveis para acomodar outras atividades ao longo do dia, enquanto a média global ficou pouco acima de três terços (76%).  

A mudança de emprego é um fato para 81% desses trabalhadores brasileiros, que estão determinados a achar uma oportunidade que lhes traga mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O índice é maior que o global, que ficou em 67%. 

Para falar sobre as principais tendências na pesquisa Workmonitor e apresentar insights sobre a área de Recursos Humanos, o Experience Club conversou com Fábio Battaglia, que comanda a Randstad Brasil desde 2019, com resultados expressivos na companhia. Foram incorporados 200 novos funcionários em 2021, chegando a 700 colaboradores. 

Ainda em 2021, a consultoria também bateu um recorde no número de oportunidades de trabalho. Foram 50 mil vagas preenchidas e a estimativa é crescer de 25% a 30% em 2022. Battaglia destaca que os talentos mais procurados pelas empresas em 2022 serão profissionais de Finanças, RH e do setor de Tecnologia. Confira os principais trechos da entrevista. 

Como você analisa o ano de 2021 para a Randstad Brasil e quais são as expectativas da empresa para 2022? 

O ano de 2021 foi um ano recorde nesses dez anos de operações no Brasil. Éramos 500 pessoas no início do ano passado e fechamos 2021 com 700 funcionários. Incorporamos 200 pessoas ao longo do ano para poder transformar a vida de 50 mil pessoas. Gostamos de falar do nosso propósito de mover e impulsionar a sociedade brasileira por meio do emprego e do talento. Conseguimos nos posicionar para atender a distintas demandas que apareciam em um cenário de pandemia, como a necessidade crescente de mão de obra temporária, para justamente acomodar a volatilidade do mercado, as incertezas e o afastamento de equipes. É uma solução bastante interessante que acomoda picos e vales, sem custos adicionais ou com muita agilidade. Ao mesmo tempo, a vacinação trouxe um aumento da contratação efetiva por tempo indeterminado, visto que as empresas começaram a ter mais confiança no mercado com a retomada econômica. Somado a isso, oferecemos uma carteira de soluções customizadas, com programa de jovens talentos, de diversidade e inclusão, que nos possibilitou encontrar uma série de oportunidades de negócio. Em 2022 temos estimativa de crescimento de oferta de vagas na Randstad Brasil da ordem de 25 a 30%, tanto em mão-de-obra temporária quanto em posições permanentes.    

Na última edição do estudo Randstad Workmonitor, foi constatado um fenômeno global intitulado de great enlightenment. Do que se trata e como as empresas e os trabalhadores no Brasil são atravessados por este fenômeno? 

A expressão great enlightenment, o grande despertar em português, é um fenômeno que se deu no pós-pandemia. As pessoas trabalhando de casa, em um ambiente que poderiam compatibilizar demandas profissionais e pessoais, começaram a questionar o que queriam para si em termos de desenvolvimento profissional e, também, em outras atividades que compõem a vida, um balanço profissional e pessoal. Perceberam que havia mais além do ambiente profissional, como cuidar da saúde física, mental, do autodesenvolvimento e da família. Tudo isso começou a ter um papel mais importante e as pessoas começam a compatibilizar desafios profissionais com as atividades e os anseios pessoais e familiares. Olham o mercado profissional com outros olhos e começam a buscar alternativas de trabalho que permitam esse balanço pessoal e profissional. A pesquisa foi muito clara quando começa a explorar esse tema. Identificou que, no Brasil, 90% das pessoas têm mais clareza sobre os objetivos profissionais e esse índice é maior do que na pesquisa global, com 70%. Mais de 80% dos trabalhadores brasileiros estão dispostos a procurar uma nova oportunidade de trabalho que lhes dê mais equilíbrio pessoal-profissional. Esse número supera o índice global, que é de 67%. 

Comércio digital e logística foram destaque em contratações em 2021. Eles continuam sendo os maiores empregadores deste ano? Tem alguma indústria que se junta a eles? 

Esses setores continuam sendo preponderantes. Com a pandemia passamos a consumir muitos produtos e serviços online. Então, comércio eletrônico e toda logística que viabiliza esse negócio tiveram um boom nesses últimos dois anos. Isso veio para ficar. É um modelo de negócio que hoje é predominante e vai trazer o maior número de contratações nesse ano. Todos os brasileiros com smartphone podem realizar transações comerciais de uma forma oportuna, conveniente e barata. Obviamente isso traz outras possibilidades. Quando falamos de comércio eletrônico e digital, falamos do marketing digital e toda estrutura de atendimento a esses consumidores que compram remotamente, na área de prestação de serviços, atendimento e logística. Somam-se a essas indústrias os bens de consumo massivo. Alimentos e bebidas, higiene e limpeza e cosmético são produtos de uso cotidiano que voltam a fazer parte da lista de compras. À medida que o emprego e o poder aquisitivo voltam, estes setores tendem a crescer. Vemos nesses segmentos o maior potencial de contratação ao longo de 2022. 

Profissionais de tecnologia são muito requisitados. Além deles, quais outros perfis estão sendo mais buscados pelas empresas? Por quê? 

Tecnologia é a bola da vez. Existe uma escassez de talento, que é global, e o Brasil não é diferente. Há um grande gap de formação de talentos, ou seja, a demanda é muito maior do que a oferta e isso gera dificuldade de as empresas encontrarem esses talentos, com o tíquete (salário) subindo bastante. Existem profissionais com várias propostas de trabalho ao mesmo tempo, que podem escolher projetos novos, sem preocupação. E as fronteiras caíram efetivamente: temos profissionais de tecnologia brasileiros trabalhando no exterior e vice-versa, ou trabalhando remotamente – é o mundo globalizado do profissional de tecnologia. Mas além desse setor, vemos duas áreas importantes que são tendência: Recursos Humanos e Finanças.  

Dados da Associação Brasileira de Trabalho Temporário (Asserttem) apontam que o país contratou mais de 2 milhões de temporários no ano passado, 31,5% a mais que no ano anterior. Qual a vantagem do trabalho temporário para empresas, mas também para talentos? 

A vantagem para a empresa é justamente o acesso ao uso de mão de obra de forma ágil e flexível e a custo competitivo, permitindo que essas empresas trabalhem em cenários de oscilação de oferta e demanda, de volatilidade, de incertezas. Elas podem ajustar o tamanho do seu quadro de pessoal de uma forma bastante ágil.  Para o candidato é uma forma incrível de entrar no mercado de trabalho, de participar de novos setores da economia, de aprender sobre novos processos, adquirir novas competências, fortalecer o networking e, em última instância, passa a ser uma forma de entrada para o contrato efetivo, de prazo indeterminado, visto que várias  contratações temporárias são convertidas para contratos de prazo indeterminado. É uma oportunidade incrível em um mercado que ainda apresenta alguma restrição no nível de emprego, mas que oferece uma oportunidade grande para aprendizado e desenvolvimento profissional para as pessoas que estão buscando uma atividade de forma regulamentada, formalizada, com todos os benefícios e segurança que um trabalho por tempo indeterminado também oferece.  

Texto: Andrea Martins

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