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“Eu nem imaginava que poderia ser diretora. Era normal que sempre fossem homens”

A primeira CEO mulher e negra da austríaca Fronius no Brasil fala dos desafios de transpor as barreiras invisíveis do preconceito

Há uma máxima das pautas identitárias que diz: representatividade é importante. A presença de mulheres, pessoas pretas e LGTBQI+ em altos cargos de gestão é mais do que uma conquista profissional, é uma quebra de paradigma, um reforço de que a competência é algo inerente aos profissionais, independentemente da questão racial, de sexo ou gênero. 

Por esse motivo, desde que assumiu como CEO da subsidiária brasileira da empresa austríaca Fronius, de equipamentos e soluções para energia solar, Monalisa Gomes sempre se mostrou próxima de seus colaboradores. “Eles não se sentiam tão distantes. Para eles, eu era uma realidade próxima: ‘Veio da onde a gente veio e eu também posso chegar lá um dia’”, conta.

Quando Monalisa “chegou lá”, teve dúvidas de que estava preparada para o cargo. Ela era a primeira mulher negra a assumir como CEO da companhia, por isso, além do frio na barriga dos novos desafios, outras questões também estavam latentes. “Será que vão me receber bem nesse mercado que é de homens?”, afirma.

Monalisa tinha a formação necessária, falava o idioma, conhecia a empresa, tinha experiência, mas ainda achava que não tinha perfil para o cargo. “Eu nem imaginava que poderia ser diretora. Era tão normal que os diretores sempre fossem homens, técnicos e austríacos”, conta.

De fato, a caminhada como CEO teve os vieses inconscientes como obstáculos. Comentários sexistas, racismo estrutural, quase tudo velado, mas sempre presente. “Essas são as principais barreiras que, teoricamente, são invisíveis, mas elas existem. E essas invisíveis são as piores barreiras da gente transpor”, diz Monalisa.

Essas barreiras de preconceito exigem o dobro das mulheres. É preciso ser estratégica e manter-se firme. “Como mulher, eu tenho que ser sniper. Eu não tenho bala para gastar. Então, se eu vou para uma negociação, eu tenho que ser assertiva porque eu não vou ter outra oportunidade de descontração para poder sentir o negócio”, afirma.

Monalisa se refere, principalmente, ao jogo político nas relações empresariais. Por ser uma CEO, e não um CEO, não cabe a ela ir a um bar, ou a um jogo, ou a um evento com clientes, como os empresários homens costumam fazer para estreitar laços e fechar negócios. “Porque se eu for, estou vendendo sexualmente o produto da empresa, porque isso não é lugar para mim. Mas por que é para o outro?”, questiona.

Para se manter firme e focada, Monalisa contou com o apoio da equipe. “Construir essa relação com a minha equipe me dava esse conforto e essa segurança porque eu sabia que eles acreditavam em mim e essas barreiras eu não tinha com eles”, diz.

Hoje, Monalisa atua como consultora na Áustria, mas deve voltar ao Brasil para assumir outra vez o cargo de CEO, dessa vez no agronegócio. Para as profissionais que estão chegando, Monalisa deixa um recado. “O primeiro passo para a gente chegar lá é se visualizar, acreditar que a gente pode. Eu não romantizo a luta, é um caminho difícil, é um caminho árduo, mas que vale a pena”, conclui.

Texto: Juliana Destro

Fotos: divulgação

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