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De onde vêm as boas ideias: um dia na vida de um head de inovação

Como Charles Schweitzer busca inspiração e insights para acelerar a inovação no Grupo Carrefour

Por Clayton Melo

Eram pouco mais de 9h30 quando Charles Schweitzer, head de inovação do Grupo Carrefour, entrou num supermercado da rede na avenida Giovanni Gronchi, na zona sul de São Paulo. Ao chegar perto de um dos dois caixas exclusivos da operação de comércio eletrônico da empresa, ele recebeu de um funcionário um aparelho, parecido com um celular grande, que traz todos os pedidos online feitos pelos clientes. Por meio de um dashboard na tela, o equipamento mostra em tempo real a listagem de produtos e um cronômetro, entre outros mecanismos de controle.

A tarefa de Charles naquele momento seria pegar nas gôndolas os produtos solicitados online minutos antes por um consumidor, depois voltar para o caixa, registrar as compras e dar baixa no sistema. O pedido continha cerca de dez itens, todos de alimentação. O cliente era real, a compra era real, a missão de Charles também. Mas o objetivo dele, naquele momento, ia muito além de apenas efetivar a compra de um cliente.

Sua intenção era ver na prática como se dá a jornada de compra que se inicia pelo site ou app do Carrefour e precisa ser completada por funcionários de carne e osso numa loja física. Havia algum obstáculo no meio do processo, algo que não estava funcionando bem? A interface do aparelho é amigável? O que pode ser feito para ajudar o “picker” a realizar esse percurso da maneira mais prática e eficiente? Que tipo de inovação ou tecnologia poderia ser inserida na jornada?

Charles Schweitzer, head de inovação do Grupo Carrefour, em um dia de picker

Chamada internamente de “Picker Day”, essa experiência é organizada de tempos em tempos, em diferentes lojas, pela equipe da operação virtual do Carrefour para aperfeiçoar os processos. Foi a primeira vez que Charles, que lidera uma equipe cuja função é apoiar com tecnologia e inovação todas as outras áreas do grupo, viveu o seu dia de “picker”.

Charles Schweitzer, head de inovação do Grupo Carrefour, checando o processo de compra online para pensar em melhorias

Ele avaliou que o sistema e o processo de compra são bem práticos e funcionais, mas já pensou em possíveis melhorias. “Vários processos foram desenvolvidos com a melhor ferramenta disponível no momento em que foram criados, mas sempre dá para melhorar. A gente ainda tem alguns controles manuais, em papel”, diz. “Isso pode ser digitalizado para melhorar a produtividade”. 

Inovação é movimento

Esse episódio ilustra bem o modo como Charles entende a inovação e guia os trabalhos de sua área. Desde 2019 como head de inovação do Banco Carrefour, de três meses para cá ele passou a acumular também o posto de líder de inovação do Grupo Carrefour. “Pra inovar tem de gastar sola de sapato, não dá pra ficar só no escritório”, diz Charles ao EXP enquanto caminha entre uma gôndola e outra.

“Pra inovar tem de gastar sola de sapato,

não dá pra ficar só no escritório.”

Nessas andanças, sem que nada esteja combinado, Charles pode até mesmo encontrar seu chefe, Carlos Mauad, CEO do Banco Carrefour, que naquele mesmo dia também caminhava por entre os corredores do supermercado acompanhado de outros executivos da empresa. “Nossos sistemas estão cada vez mais integrados e usamos mais tecnologia embarcada”, afirma Mauad ao EXP. “E agora reforçamos a agenda de inovação no grupo todo”, diz o CEO, referindo-se ao novo desafio de Charles na companhia.

Charles Schweitzer, head de inovação do Grupo Carrefour, com o presidente do Banco Carrefour, Carlos Mauad, à direita. À esquerda, Magali Aquino, diretora de operações digitais do Carrefour

Nessa função, Charles procura sempre estar em contato com seus pares de outros setores da organização, como Magali Aquino, diretora de operações digitais do Carrefour, que também participou da experiência na loja. Para ela, esse diálogo permanente com a diretoria de inovação é fundamental. “Integrar e aproximar as áreas é importante. Isso potencializa a inovação e gera insights”, afirma.

Equipe do Grupo Carrefour que participou do Picker Day

Como estimular uma cultura de inovação

A área de inovação do grupo foi criada agora, com a chegada de Charles. A respeito de suas novas atribuições, ele explica que a estratégia implementada no banco facilita o caminho para estruturar um projeto para a organização toda. “São três anos de atuação com resultados consistentes no banco, as pessoas já tinham a percepção de um trabalho em execução. Portanto o ambiente é muito favorável”, diz.

Os aprendizados no banco serão valiosos na nova função. Um dos principais, diz Charles, é exercitar a capacidade de escuta e colaboração, o que ajuda a tirar da frente “os anticorpos” que travam a inovação. “Nas primeiras reuniões que tive quando cheguei ao banco, eu dizia para os outros líderes, depois de ouvi-los bastante, que, se tivessem algum problema, eles deviam se lembrar de mim”. Foram necessárias três reuniões até que a provocação surtisse efeito. “Um certo dia uma gerente de projeto me disse ‘eu tenho um problema pra você’. Assim nasceu o Startup Jam”, diz Charles.

“Nas primeiras reuniões que tive quando cheguei ao banco,

dizia para os outros líderes que, se tivessem algum problema,

eles deviam se lembrar de mim.”

Inovação aberta

O Startup Jam é o programa de inovação aberta do Banco Carrefour. Desenvolvido em parceria com a consultoria de inovação Kyvo, o projeto consiste em abrir chamados para startups com soluções específicas nas mais diferentes áreas do banco. O programa já selecionou mais de 120 startups.

Charles Schweitzer, head de inovação do Grupo Carrefour, durante a apresentação de uma das startups escolhidas no programa Startup Jam

Uma delas é a Analize, uma plataforma de gestão contábil que roda na nuvem. No mesmo dia da experiência como picker, depois de ter almoçado e voltado para o escritório, Charles assistiu – via videoconferência – a uma apresentação que os empreendedores fizeram para o setor de contabilidade do banco, que sugeriu um desafio para o Startup Jam.

O desafio era desenvolver uma prova de conceito de um sistema que possibilitasse tornar mais ágil e precisa a análise e previsão de fluxo de caixa. Para lançar essa chamada, Charles precisou primeiro entender qual era a angústia dos colegas do departamento financeiro. “Eu passei um dia inteiro com o pessoal da contabilidade, tentando entender o que eles precisavam. Daí fomos ao mercado buscar uma solução”, afirma. “Neste caso específico, estamos falando de produtividade na veia para o time contábil”.   

“Passei um dia inteiro com o pessoal da contabilidade,

tentando entender o que eles precisavam.

Daí fomos ao mercado buscar uma solução.

Estamos falando de produtividade na veia para o time.” 

Framework de inovação  

O Startup Jam tem o objetivo de encontrar inovação já existente, num curto espaço de tempo, para modelos de negócios atuais do banco. Além desse projeto, o framework de inovação contempla um programa (Be Ocean, conduzido com a Liga Ventures) para buscar startups disruptivas, com soluções capazes de transformar o negócio do grupo no médio e longo prazos.

Além desses dois braços com foco em inovação aberta, a estratégia tem também um olhar para o intraempreendedorismo. Nessa frente, uma das ferramentas é um portal de inovação no qual qualquer colaborador pode apresentar um projeto. “Se a ideia for aprovada, a pessoa que deu a ideia vai receber os recursos necessários para ela própria executar o projeto. Não é caixinha de sugestões”, brinca Charles.

Outra iniciativa de intraempreendedorismo é um hackathon realizado todo fim de ano. Os funcionários que se inscrevem têm entre 48 e 52 horas corridas para desenvolver um projeto. “Eles próprios montam suas equipes e se organizam para entregar um protótipo no prazo indicado. Os melhores são selecionados”.

O estímulo ao intraempreendedorismo conta também com a Lab 368, uma incubadora voltada exclusivamente a projetos desenvolvidos pelos funcionários. Ela tem programas com duração de um ano e foco nas áreas de vendas, resultados, experiência do cliente e sustentabilidade.

Sede do Banco Carrefour tem espaços para descompressão

De onde vem a inspiração

Para manter as áreas do banco – e agora também do grupo – sempre arejadas, com novas tecnologias e inovações, é preciso estar sempre atento ao que surge de novo no mercado, mas não só. É preciso ser curioso, e isso significa abrir olhos e ouvidos não apenas para assuntos ligados diretamente ao trabalho. “Eu gosto de me informar sobre uma grande diversidade de temas. Eu não fico fechado numa coisa só, busco a cultura geral”, diz Charles. Um de seus canais preferidos de informação é o portal de inovação The Verge.

 “Gosto de me informar sobre uma

grande diversidade de temas.

Não fico fechado numa coisa só, busco a cultura geral.”

Outra maneira que ele encontrou para se inspirar e aprender sempre é produzir conteúdo – e bastante conteúdo, de podcasts a artigos jornalísticos e livros, além de palestras. Ele é autor do livro “Inovação, Digitalização e Transformação Digital” e criador do podcast DuoCast, em parceria com o executivo de varejo Antônio Lúcio. Também é um dos responsáveis pelo Trend News, um programa semanal sobre inovação e tendências de negócios feito em parceria com Martha Gabriel e Renato Grau.

Como é a organização da agenda

Com tanta produção de conteúdo, além do trabalho, como fazer pra tudo isso caber no dia? O segredo é manter uma disciplinada e equilibrada. “Eu sempre começo meu dia com alguns bloqueios na agenda”, diz. As faixas bloqueadas são das 7h30 às 8h30, a hora do almoço e das 19h30 às 20h30, o que significa que não adianta tentar agendar uma reunião com ele nesses intervalos. “Eu não aceito nesses horários, em hipótese nenhuma. Para aceitar, tem de ter um motivo muito forte, com a explicação de por que é necessária a reunião.”

O dia dele começa sempre à 6h30, quando toma um café rápido, leva os filhos para a escola e o cachorro para passear. A partir das 9h ele inicia o trabalho. Com o Banco Carrefour em modelo híbrido, Charles costuma ir ao escritório três vezes por semana. Com a equipe, ele mantém sempre uma reunião toda segunda-feira, às 9h, que ele chama de “check in”, para organizar as tarefas, e outra às sextas-feiras, às 17h, quando faz o balanço semanal. “Toda semana a gente tem esse ritual. Com base nisso, a gente se encaixa, e funciona perfeitamente. Além disso, faço uma reunião mensal com cada membro”.

A agenda diária também tem espaço reservado – e sagrado – para a atividade física. Charles gosta de treinar à noite e cada dia ele pratica uma modalidade diferente, como vôlei, bicicleta ou musculação. O gosto por esporte é tanto que ele também é triatleta e já correu três maratonas. “A rotina de treino para mim é essencial, por isso bloqueio na agenda”, diz. “É a hora em que me desconecto do trabalho”.

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