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Aos 111, IBM abraça a open revolution

Entrevista: Marcelo Braga, presidente da IBM Brasil

O histórico de adaptação e evolução do modelo de negócio da IBM é, literalmente, secular. Como poucas empresas no mundo e única na indústria da tecnologia.

Pois a IBM completa 111 anos – e 105 de Brasil, sua primeira filial no mundo – em novo ciclo de mudança provocada pelo que o presidente da IBM Brasil, Marcelo Braga, destaca como a “open revolution”. Um contexto em que as barreiras tradicionais de competição dão lugar para a cocriação e a colaboração, dentro de um ambiente tecnológico muito mais complexo e fluido com o amadurecimento da nuvem.

Na entrevista a seguir para a EXP, Braga fala sobre a reestruturação dessa “nova IBM” após o spin off da Kyndryl, o retorno às raízes com muito mais foco em desenvolvimento na vanguarda tecnológica, o amadurecimento da indústria da nuvem e urgência da cibersegurança como um dos itens mais estratégicos do futuro dos negócios. Leia também a entrevista com o diretor Fabrício Lira, sobre a remodelagem da área de Ecossistemas da IBM.

Como foi a sua jornada até a presidência da IBM?

Tenho minha formação como analista de sistemas e faço 25 anos de IBM em janeiro de 2023. Minha carreira começou técnica, trabalhei um ano e pouco antes de chegar à IBM e aqui já entrei na área comercial. Houve, então, a necessidade da evolução para um mundo mais de negócios, mais gestão. Aí eu fiz MBA em marketing, MBA em finanças e, depois, MBA em administração de negócios. Isso complementou bastante a visão técnica com a visão de marketing, finanças e de gestão, para ter uma visão maior do negócio e poder abrir novas oportunidades com a empresa. Eu sempre mantive a preocupação de me manter atualizado como diferencial, adquiri esse hábito a vida toda. Sou um adepto do lifelong learning desde lá atrás. 

De um ano para cá, a IBM tem passado por um momento de transformação importante. Quais são os pontos fundamentais de mudança?

A gente fez 111 anos de IBM no mundo e 105 anos de IBM Brasil. Somos a primeira filial fora dos Estados Unidos, o que é um motivo de muito orgulho para nós. As grandes empresas do Brasil e do mundo têm componentes de tecnologia IBM dentro do seu core de negócios, então isso traz uma responsabilidade muito grande para nós. Mas a IBM de hoje está muito focada nesse momento de adaptação da empresa para a realidade de mercado, de continuarmos protagonistas dentro dos nossos clientes daqui para frente. 

Fizemos um spin off da nossa unidade de serviços e de sistemas de managed services, que originou a Kyndryl, uma empresa completamente independente. Não é uma empresa do grupo IBM, ela tem ação própria, gestão própria e board próprio. Temos lá bons amigos, mas com gestão de negócios completamente independente, um grande cliente e grande parceiro globalmente.

Qual é o impacto na atuação da IBM após o spin off da Kyndryl?

A IBM de hoje tem a responsabilidade de manter a infraestrutura dentro dos clientes, mas está olhando para o mundo de cloud híbrida. Precisa garantir a integridade do sistema dos nossos clientes e está olhando muito fortemente para a cibersegurança. A gente sempre foi o core dos sistemas dos nossos clientes e agora estamos olhando para inteligência artificial, automação robótica, de como a gente eleva os processos de negócio dos nossos clientes a um outro patamar. 

É uma empresa mais leve, mais focada, mais protagonista no que decidiu fazer bem feito, isso é o que a gente acredita para tornar a IBM perene pelos próximos 100 anos. 

Vemos, claramente de um lado, o protagonismo de infraestrutura e do legado. E de outro, os que os clientes querem: cloud híbrida, cibersegurança, inteligência artificial e otimização de processos de negócio. Então, a IBM de hoje traz essas duas vertentes, com toda essa parte de hardware, software em segurança e inteligência artificial. E um lado de consultoria, que é muito focado nessa jornada para a nuvem e otimização de processos de negócios.

A IBM ganha um posicionamento mais estratégico dentro do cliente?

Eu acho que agora a gente voltou à nossa origem como uma empresa de tecnologia avançada, disruptiva. É isso que transformou o mundo nos últimos cinco ou dez anos e é o que vai continuar liderando daqui para frente. No passado, o tema era sobre sistemas IBM e agora é sobre como a gente se encaixa dentro de um mundo de arquiteturas abertas, de um ecossistema estendido, seja de produtos, seja de parceiros de negócio. Então a gente entende claramente que o mundo de hoje é um mundo de cocriação, de interconectividade e de hiperconectividade.  É nosso papel fazer parte de um ecossistema muito mais amplo, levando soluções de negócios para os nossos clientes. 

O mundo pós-pandemia tornou muito mais complexa a arquitetura e as soluções de tecnologia demandadas pelo mercado?

Tenho alguns pontos de vista sobre essa pergunta. Primeiro, que há muito mais produto e serviço, como software as a service (SaaS), soluções “nichadas” e absolutamente importantes que são entregues muito mais rápido. Há mais complexidade de gestão de tecnologia do lado do fornecedor, e não do cliente. Então, essa entrega a partir da nuvem tornou a adaptação para o mundo da pandemia muito mais rápida. 

No pós-pandemia, eu vejo a gente entrando em uma nova era digital. Se num primeiro momento era uma questão de sobrevivência a adaptação muito rápida, agora já é um cenário de como pegar o que foi feito, melhorar e subir o nível de segurança. As soluções precisam ser aprimoradas no intuito de aumentar a eficiência e dar perenidade, o que aumenta a complexidade, sem dúvidas. 

São esses dois vieses: muita agilidade na entrega do que não era tão simples antes, de uma aceleração de negócios com a cabeça digital que demoraria muito mais tempo do que foi acelerado pela pandemia, e uma janela de oportunidade para pegar o que deu certo e agora inserir no nível corporativo de fato. Olhando disponibilidade, resiliência e segurança como pilares fundamentais para soluções de negócio. 

Você destacou que a empresa ficou mais leve. Como está sendo feito na prática a estruturação dessa nova IBM?

A nova IBM teve um downsizing com a saída da Kyndryl, mas as unidades aqui dentro já eram verticalizadas de uma forma que essa separação da estrutura não foi tão complexa. Mas é sempre oportunidade de fazer mudanças importantes aqui dentro. Hoje, temos uma estrutura hierárquica no Brasil muito mais achatada. Eu tenho praticamente todas as linhas de negócios reportando direto para mim, o que traz muito mais agilidade, muito mais comunicação entre o time. Decisões são tomadas de uma forma muito mais veloz do que no passado, e uma cabeça diferente de atuar no time como um todo. 

Trabalhamos todos juntos do corpo de liderança da IBM Brasil, na mesma sala, para que essas decisões sejam tomadas de forma super rápida, com menos hierarquia, mais velocidade e mais agilidade para atender o mundo de hoje, em que as respostas tem que ser muito mais rápidas e assertivas. 

A tecnologia de ponta está ganhando mais corpo nessa reconfiguração. Quais são as novas fronteiras que a IBM está olhando, com aplicação imediata no dia a dia dos clientes?

A migração para a nuvem é uma questão na agenda de todo mundo. Todas as empresas, de todos os tamanhos, inclusive algumas que já nasceram direto em nuvem. Isso foi super importante. O que a gente está vivendo agora, no meu entender, é um momento de mais maturidade nessa discussão. De entender que não se trata mais sobre ter um provedor de nuvem somente. Mas alguns, porque cada um deles tem suas ofertas e as suas fortalezas, que são diferentes uns dos outros. 

E aqui, talvez o ponto mais importante é como os clientes migram para essas arquiteturas de uma forma aberta, sem lock-in de fornecedores, de uma forma que você tenha liberdade de movimentar os workloads do jeito que o cliente queira. Tem alguns workloads que podem não ir para a nuvem, mas a arquitetura precisa garantir que seja um conceito de cloud híbrida, que pode estar numa nuvem privada, pode estar numa nuvem aberta, pode estar aonde o cliente quiser. Eu acho que essa é a grande oportunidade dos clientes: ter liberdade de escolha, sem dependência, que era um tema que eles sempre traziam muito à mesa. 

A inteligência artificial chegou ao back-office das empresas. Como isso impacta na cultura organizacional das empresas?

Quando a gente lembra que a Bia, do Bradesco, já vai fazer sete anos e que a inteligência artificial aprende muito mais rápido que o ser humano, percebemos que ela já chegou a outro nível. Temos vários cases aqui no Brasil incorporados ao nosso dia a dia. Seja um banco, em telco, governo, indústria, todos os setores; já não é mais uma coisa que você olha e fala assim: tem uma indústria protagonista. É algo que está espalhado e com centenas de clientes no Brasil usando tecnologia de inteligência artificial, seja para atendimento ao cliente, seja para automatização de processos, seja para automação, robótica é um campo de aplicação. 

Quem começou a investir nisso lá atrás, passou pela pandemia muito melhor do que quem não fez, no momento em que todos os call centers tiveram que ser fechados. E quando você faz tudo na nuvem, paga o quanto você consome. São centavos para cada chamada de atendimento, é outro grau de oportunidade que não está restrito para as grandes empresas. Muito pelo contrário: o leque de atendimento aqui vai de startups a multinacionais, com inúmeras aplicações. 

Até pouco tempo atrás, o objetivo era vender os sistemas IBM de uma forma vertical, assim como os concorrentes tinham as suas soluções. O que muda com o conceito do ecossistema?

Eu vejo duas questões aqui. A primeira delas é que hoje temos tecnologias e padrões estabelecidos na indústria que permitem essa abordagem mais ampla e conectada. Todo esse modelo de negócios como open banking, open finance, open insurance – essa open revolution que está acontecendo agora – obriga o mercado a falar em linguagens, padrões, em formas comuns de integração. 

Segundo aspecto: a IBM foi pelo 29º ano seguido a empresa que mais registra patentes no mundo. Em contraponto, a gente comprou a Red Hat [em 2018, por US$ 34 bilhões], que é líder global no mercado de open source e não tem nenhuma patente. Pega absolutamente tudo o que é desenvolvido pela comunidade e agrega funcionalidades de nível corporativo, de suporte, de segurança, entrega o que a comunidade está usando para as empresas poderem trabalhar. 

Então, na hora que você vê uma empresa que investe há tanto tempo no seu capital intelectual, também olhando para o lado open e vendo aqui uma oportunidade, essa junção das duas coisas é que vira uma combustão. 

Saiba mais:

IBM reestrutura área de ecossistema

Entrevista com Fabricio Lira, diretor de ecossistema da IBM

IBM - EXP

Texto: Arnaldo Comin

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