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Solinftec aposta em robótica e crédito de carbono

Startup paulista especializada em soluções para agricultura de precisão amplia a atuação na cadeia de alimentos com tecnologias preditivas e serviços ambientais, e pode se tornar este ano o primeiro unicórnio brasileiro do setor  

A Solinftec, principal candidata a se tornar o primeiro unicórnio do agronegócio brasileiro, está entrando em uma nova fase de aceleração dos negócios.

Depois de adotar o modelo de SaaS, alcançar participação 90% na indústria brasileira de cana-de-açucar e entrar em novas verticais e culturas agrícolas, a startup paulista vêm se dedicando ao desenvolvimento de soluções preditivas baseadas em inteligência articifial e robótica e a serviços ambientais.

“Estamos atuando em projetos de robótica que identificam pragas, avaliam o grau de infestação, o estado nutricional da planta, entre outros dados para recomendações futuras de produtividade e também para microaplicações. É uma frente que está começando e tem um potencial enorme para aumentar ainda mais a produtividade do campo”, diz Emerson Crepaldi, diretor de operações no Brasil, em entrevista ao EXP.

Na área ambiental, a startup oferece aos clientes a possibilidade de medir os impactos ambientais da produção e a redução desse impacto com o uso de novas tecnologias, como as oferecidas pela própria Solinftec. “Estamos nos preparando para gerar retorno econômico para o produtor por meio de créditos de carbono”, afima Crepaldi.

Em maio de 2021, a agtech recebeu o primeiro certificado de recebíveis verdes do agronegócio (CRA Verde), no valor total de R$ 140 milhões.

Fundada em 2007, por sete engenheiros cubanos, em Araçatuba, no interior de São Paulo, a Solinftec demorou a decolar. A empresa desenvolveu desde os primeiros anos tecnologias de ponta para aumentar a produtividade no campo, usando telemetria e softwares de automação. Mas tinha pouco dinheiro para investir na frente.

Foi só a partir de 2017, com a entrada de grandes investidores, que o negócio começou de fato a ganhar tração. Desde então, porém, a startup já recebeu US$ 86,6 milhões de dólares e se tornou um dos negócios de tecnologia ligada ao campo mais promissores do Brasil. Entre os sócios, hoje, estão a americana TPG Alternative & Renewable Technologies, e a Unbox Capital, da família Trajano, do Magazine Luíza.

Os sistemas de gestão e apoio à tomada de decisão da Solinftec monitoram mais de 35 mil equipamentos agrícolas e utilizam-se de inteligência artificial para munir os gestores com informações mais precisas para a tomada de decisões nas fazendas. Além do Brasil, a empresa já atua em mais de uma dezena de países da América Latina, nos Estados Unidos e no Canadá, a mais nova investida no meracdo internacional. 

Na avaliação de Crepaldi, ao longo do processo de expansão, o principal diferenical da empresa tem sido a proximidade com os clientes. Dos 800 colaboradores da empresa, 40% são do time de campo. “Não adianta ser uma startup com tecnologia de ponta se você não está perto da lavoura, não entende os aspectos práticos do dia a dia e as dores do cliente”, afirma.

Em entrevista à EXP, o executivo falou sobre a trajetória e os planos da empresa. Leia a seguir os principais destaques da conversa:

  

Cubanos no agrotech 

“A Solinftec foi fundada por engenheiros cubanos, no Brasil, em 2007. Eles identificaram uma oportunidade de desenvolver tecnologia para auxiliar a agricultura brasileira, com foco inicial nas usinas de cana-de-açúcar. Na época, existia uma solução de telemetria que fazia o monitoramento das máquinas. Porém, o processo era manual, inserido pelos operadores. Os fundadores criaram uma solução para automatizar o processo e eliminar a intervenção humana na geração de dados.”

Conectividade no campo 

“Em 2012 uma rede proprietária foi desenvolvida para ser usada pelos nossos clientes, pois não existia conectividade no campo. A Rede Solinfnet é apenas um meio para que os dados trafeguem em tempo real e permitam as decisões de negócio. Quando o 4G chegar ao Brasil todo, essa rede deixará de existir, oferecemos como um opcional do nosso serviço. Não adianta monitorar, por exemplo, a aplicação de um fungicida e só saber que algo está errado dias depois. É preciso ter informações em tempo real.”

Eficiência operacional 

“Nossa solução utiliza um hardware para a coleta dos dados de forma automática, mas o diferencial está na inteligência do software. Quando os dados começaram a entrar automaticamente, sem depender do operador, os donos das usinas conseguiram identificar vários gargalos na operação. Em 2010, a Solinftec lançou uma solução que possibilitou a avaliação de todo o fluxo da micrologística do campo, gerando um aumento de 30% a 50% na eficiência das máquinas usadas na colheita.”

Remuneração variável e meritocracia 

“A automatização dos processos mudou a forma de pagamento aos operadores. Antes, os usineiros somavam o total de toneladas colhidas e dividiam o valor por igual, remunerando pela média. Agora, 90% das usinas pagam de acordo com a produção efetiva de cada operador, ou seja, por remuneração variável. A média do setor hoje está em 14 horas efetivas de colheita, em distintos turnos de trabalho; no início, a produção efetiva das máquinas era de 7 horas.”

Pivotando para SaaS 

“Em 2016, entendemos que só conseguiríamos crescer em escala se deixássemos de vender o hardware da solução. Nessa época, cada projeto fechado era suficiente apenas para pagar os salários e comprar os equipamentos que venderíamos para a próxima usina. Optar pela locação do hardware nos permitiu focar no desenvolvimento da inteligência do software. A mudança nos Ofereceu um payback mais rápido aos fazendeiros e garantiu a renovação tecnológica dos equipamentos após 2 ou 3 anos de uso. O modelo de negócios passou a ser SaaS. Saltamos de 50% de mercado para os atuais 90%.”

Abrindo novas frentes 

“Criamos a vertical Grão e Fibras e para essa expansão buscamos um investidor – a TPG Alternative & Renewable Technologies – para uma rodada Série A. Iniciamos no estado de Mato Grosso, em 2016, e descobrimos na prática que teríamos de desenvolver uma solução específica para esta cultura. Em 2019, entramos no mercado de cafeicultura e citricultura e a cada nova vertical a imersão e adaptação da solução é feita.”

Internacionalização 

“Iniciamos a expansão internacional na Flórida e no oeste americano, em 2018. Em um primeiro momento, ficamos bem impressionados, pois há rede 4G em todo o campo. Apesar de utilizarem soluções de coleta de dados por meio de telemetria, os produtores de milho não contavam com nenhum sistema inteligente que pudesse transformar os dados em informações para tomada de decisão. Vimos que havia um oceano de oportunidades nesse mercado. Hoje, atendemos mais de 1,6 milhão de hectares em plantações de milho nos EUA e estamos iniciando a operação no Canadá. Na América Latina, atuamos no Peru, Guatemala, Colômbia, Argentina, Nicarágua e Chile.” 

Profissionais para agricultura digital  

“Existe hoje um problema no Brasil de formação de profissionais capacitados para a agricultura digital. Não existem escolas e as universidades ainda estão em processo de adaptação. Investimos muito em formação de mão-de-obra, contratando pessoas recém-formadas e as trazendo para as lavouras. Fizemos uma parceria com a FATEC para ajudar a fomentar esse desenvolvimento. A agricultura digital é uma demanda em constante crescimento e existe uma oportunidade enorme para quem quiser entrar nesse mercado.” 

Alice – IA no agro 

“Em meados de 2019, começamos a formar um time dedicado para trabalhar com tecnologias como inteligência artificial. A Alice, como a chamamos, é nosso cérebro onipresente. Está em todas as soluções e tem acesso a todos os dados. Ela também começa a interagir com o operador avisando, por exemplo, sobre o uso irregular de um determinado fungicida, que deve ser aplicado a uma temperatura ou umidade específicos para evitar desperdício.” 

Robótica para produtividade 

“Estamos atuando em projetos de robótica que identificam pragas, avaliam o grau de infestação, o estado nutricional da planta, entre outros dados para recomendações futuras de produtividade e também para microaplicações. É uma frente que está começando e tem um potencial enorme para aumentar ainda mais a produtividade do campo. Hoje, 60% da produção agrícola da África é perdida por manejo e controle de pragas. Ao desenvolver uma solução que minimize essa perda, teremos um importante aumento de produção de comida nas próximas décadas.” 

Mercado de Carbono 

“Até 2021, nosso foco era voltado para as soluções de eficiência operacional. Agora, queremos expandir para toda a cadeia de alimentos e o mercado de carbono é uma dessas frentes. De forma geral, o mercado demanda cada vez mais alimentos sustentáveis e estamos em processo de certificação para, no futuro, poder gerar retorno econômico para o produtor.”  

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Fotos: divulgação

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