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Saúde mental no centro das políticas de RH

Preocupação com o aumento de casos de burnout coloca no radar de empresas e investidores startups especializadas em atendimento psicológico, como a healthtech Vittude, de Tatiana Pimenta

Em janeiro de 2022, mudanças importantes no código de doenças internacionais (CID) entraram em vigor, como a classificação da síndrome de burnout como uma doença relacionada ao mundo do trabalho. Este marco colocou a questão da saúde mental ainda mais em evidência no mundo corporativo.

“A partir do momento em que começou a ficar mais evidente que negligenciar a saúde mental traz prejuízos em termos de rentabilidade e de produtividade, o tema ganhou mais força dentro das empresas”, afirma Tatiana Pimenta, de 40 anos, fundadora e CEO da Vittude, empresa que foi pioneira no segmento de atendimento psicológico online no país, em 2016, dois anos antes da pandemia.

A engenheira civil, que concebeu a healthtech a partir da sua experiência com um quadro de depressão, vem chamando a atenção de empresas e de investidores. Em março deste ano, a Vittude recebeu um aporte Series A de R$ 35 milhões. Liderada pela Crescera Capital, a rodada contou ainda com a participação da Redpoint eventures e da Scale Up Ventures, da Endeavor.  

Nos últimos dois anos, a empresa, que hoje tem 60 funcionários, aumentou dez vezes seu número de clientes e prevê triplicar seu faturamento nos próximos doze meses. O foco, com o novo aporte, será no crescimento do portfólio de clientes que hoje somam quase 170. “Queremos ampliar a conversa com as empresas brasileiras”, diz Tatiana. 

Confira os principais trechos da entrevista que Tatiana concedeu à [EXP].

1- A que você atribui o sucesso da Vittude?

Eu tinha um mentor que dizia que contra tração não há argumentos. A Vittude cresceu sua receita doze vezes nos últimos dois anos. A gente vem crescendo a uma taxa de cinco, seis vezes por ano. Esses números contribuíram para despertar os olhares de vários fundos de investimentos. A saúde mental sempre foi muito estigmatizada, apesar de termos dados como os que foram divulgados pela OMS em 2019, que apontavam o Brasil como o país mais ansioso do mundo, o segundo mais estressado e o quinto mais depressivo. Em 2020, a OMS divulgou outros dados afirmando que a depressão seria a doença mais incapacitante do mundo. Nesses dois anos, com a pandemia, essa previsão se concretizou e as empresas tiveram que lidar com as consequências do isolamento social para a saúde mental de seus funcionários. Se as pessoas estão adoecendo, elas não vão produzir da mesma forma e isso também pesa no bolso das empresas. Nós perdemos mais de 650 mil vidas por causa da covid-19 no Brasil. Quantas famílias não estão enlutadas e precisando de acolhimento do ponto de vista emocional? Todo esse contexto contribuiu para que a Vittude ganhasse os holofotes. 

2- Qual é o papel da tecnologia para a ampliação dos cuidados com a saúde mental? 

A gente vive num país em que metade dos municípios não têm psicólogos. Somente com tecnologia eu consigo alcançar as pessoas. Nós levamos acesso ao cuidado com a saúde mental via streaming. Fomos a primeira empresa do segmento de atendimento psicológico online a obter a regulamentação para atuar em 2018, dois anos antes da pandemia. A ideia da empresa nasceu a partir da minha experiência. Eu tive depressão e precisei passar mais de duas horas no trânsito para chegar em um consultório. Pensei que precisava haver uma alternativa mais viável para isso. Depois, fui estudar o mercado e percebi a demanda por profissionais da área de saúde mental. Nós, da Vittude, tivemos um papel central na regulamentação do setor e vínhamos brigando por isso desde 2016. O Conselho Federal de Psicologia tinha um entendimento de que era antiético atender online, mas do meu ponto de vista, negar os cuidados com a saúde mental é o que fere a ética.  

3- Por quais motivos as empresas passaram a investir mais em saúde mental?

A partir do momento em que começou a ficar mais evidente que negligenciar a saúde mental traz prejuízos em termos de rentabilidade e de produtividade, o tema ganhou mais força dentro das empresas. Inclusive, algumas já conseguem medir o impacto no ROI do investimento em um projeto de saúde mental. Tem empresas que recolhem um ROI de três a oito vezes o valor investido. Isso porque é muito mais barato eu pagar a terapia de um funcionário que se mantém produtivo do que eu ter que eventualmente iniciar um novo processo de recrutamento e seleção, treinar uma nova pessoa e até mesmo lidar com passivos. 

4- O que muda com a inclusão do burnout no código de doenças internacionais (CID)

Uma vez que o burnout passou agora em janeiro de 2022 a ser classificado como uma doença exclusivamente relacionada ao trabalho isso gera implicações diretas para as empresas e seus RHs. Antes um funcionário que se afastava com um quadro de ansiedade, estava se ausentando por conta de uma doença psicossomática. Hoje, se um funcionário se afasta por burnout, isso é considerado do ponto de vista regulatório como um acidente de trabalho. E isso muda tudo. A pessoa pode requerer da empresa, por exemplo, todas as perdas salariais referente ao período de afastamento, reembolso de todas as despesas médicas. Nós sabemos de casos de empresas que um único processo custou mais de R$ 1 milhão de reais. É um valor que pagaria dez anos de um programa de saúde mental. Por isso, nós atuamos também na mitigação de riscos. 

5- Como a alta liderança das empresas têm visto o tema da saúde mental?

A alta liderança está mais consciente do ponto de vista do cuidado e do impacto direto nos resultados das empresas. Um dos maiores desafios das companhias e especialmente das que estão com o seu crescimento no foco é a atratividade de talentos. Se pensarmos numa empresa de tecnologia que não tem fábrica, o maior recurso são as pessoas. É como nós na Vittude que precisamos agora triplicar o número de funcionários. Se não cuidarmos bem de quem está dentro de casa, como faremos para continuar crescendo? Cada vez mais vamos precisar usar a nossa criatividade, o nosso potencial a favor da inovação. E se eu estiver lidando com pessoas que estão com perda cognitiva, não estão mentalmente saudáveis, essa capacidade de criar, evoluir e inovar diminui sensivelmente. 

Foto: [EXP]

Texto: Luana Dalmolin

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