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Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas

Acumular experiências diferentes, provar coisas novas e sacrificar um mínimo de profundidade de forma proativa podem beneficiar no desenvolvimento de carreiras a longo prazo

Ideias centrais:

1 – A principal descoberta de Christopher Conolly foi que, no início de suas carreiras, aqueles que mais tarde fizeram transições bem-sucedidas, tiveram um treinamento mais amplo e mantiveram vários “fluxos de carreira” abertos, mesmo quando buscavam a especialidade primária.

2 – A distribuição de esforços em diferentes instrumentos parece importante. As crianças identificadas como excepcionais pela escola acabavam sendo aquelas que distribuíam seus esforços de maneira igual por três instrumentos. Os alunos menos qualificados dedicavam mais tempo ao primeiro instrumento.

3 – A visão externa é profundamente contraintuitiva, pois exige que o responsável pela tomada de decisões ignore as características superficiais únicas do projeto em questão, nas quais é especialista, e procure analogias estruturalmente similares em outros lugares.

4 – Numa certa pesquisa, os criadores individuais começaram com baixa taxa de inovação em relação às equipes – eram menos propensos a produzir sucesso –, mas, à medida que sua experiência se ampliava, eles realmente superavam as equipes.

5 – Werner von Braun, célebre por desenvolver o foguete da missão à Lua, baseava o rígido processo da Nasa numa cultura que encorajava a discordância. Ele criou as Notas de Segunda, onde cada engenheiro expunha, toda semana, dúvidas em relato de uma página. Após anotado por ele, o relato circulava por todas as áreas.

Sobre o autor:

David Epstein é mestre em Ciência Ambiental e jornalismo pela Universidade de Columbia. Ele trabalha como repórter investigativo para diversos veículos norte-americanos e assina uma coluna sobre ciência na revista Sports Illustrated.

Introdução

Em 2016, Tiger Woods e Roger Federer se conheceram, quando ambos estavam no auge de suas carreiras. Tiger voou em seu jato particular para assistir à final do Aberto dos EUA. Isso deixou Federer especialmente nervoso. Mesmo assim, venceu pelo terceiro ano consecutivo. Woods se juntou a ele no vestiário para uma festa regada a champagne. Eles se conectaram como só os dois poderiam. “Nunca conversei com ninguém que estivesse tão familiarizado com a sensação de ser invencível”, descreveria Federer mais tarde. Eles logo se tornaram amigos, bem como focos de debate sobre quem era o principal no mundo.

Parece bastante incomum que uma criança com pais “displicentes” e que começou a jogar sem levar o esporte muito a sério tenha se transformado em um homem que domina o esporte como ninguém. Ao contrário de Tiger, milhares de crianças, pelo menos, tiveram uma  vantagem inicial sobre Roger. A incrível educação de Tiger aparece com destaque em uma série de livros best-sellers sobre o desenvolvimento da especialização, um dos quais foi um manual voltado para pais escrito por Earl, pai dele. O menino não estava apenas jogando golfe. Estava envolvendo-se na “prática deliberada”, o único tipo que conta na agora onipresente regra das 10 mil horas de experiência. A “regra” representa a ideia de que o número de horas acumuladas  de treinamento altamente especializado é o único fator de desenvolvimento de habilidades, seja qual for a área.

A pressão para se concentrar cedo e de forma estrita se estende para bem além dos esportes. Muitas vezes, aprendemos que, quanto mais competitivo e complicado o mundo fica, mais especializados devemos nos tornar (e mais cedo devemos começar) para navegá-lo. Nossos ícones de sucesso mais conhecidos ganham projeção pela precocidade e pela vantagem inicial – Mozart, nas teclas; Mark Zukerberg, CEO do Facebook, em outro tipo de teclado. A resposta, em todos os campos, a uma volumosa biblioteca de conhecimento humano e um mundo interconectado tem sido exaltar o foco cada vez mais preciso.

Em 2014, incluí algumas das descobertas sobre especialização tardia em esportes no posfácio de meu primeiro livro, A genética do esporte. No ano seguinte, recebi o convite de um público improvável para falar sobre essa pesquisa – não atletas e treinadores, mas militares veteranos. Durante o preparo, examinei revistas científicas para trabalhar com especialização e mudança de carreira fora do mundo esportivo. Fiquei impressionado como o que encontrei. Um estudo mostrou que os especialistas precoces saltaram para a posição mais lucrativa após a faculdade, mas que os especialistas tardios compensaram a vantagem inicial dos outros ao encontrar um trabalho que se encaixava melhor em suas habilidades e personalidades. Encontrei uma série de estudos que mostram como os inventores tecnológicos aumentaram seu impacto criativo acumulando experiência em diferentes domínios, em comparação com os colegas, que se aprofundaram mais em um; eles realmente se beneficiaram com o fato de sacrificar um mínimo de profundidade, de forma proativa, pela amplitude, à medida que suas carreiras progrediram.

1 – O culto da vantagem inicial

Alguns anos depois de experiências de Kasparov frente a computadores, foi realizado o primeiro torneio de “xadrez estilo livre”. As equipes podiam ser formadas por vários seres humanos e computadores. A vantagem de uma vida prática especializada que havia sido diluída no xadrez avançado foi eliminada no estilo livre. Uma dupla de jogadores amadores com três computadores normais não apenas destruiu o Hydra, o melhor computador de xadrez, como também esmagou equipes de grandes mestres usando computadores. Kasparov concluiu que os humanos da equipe vencedora eram os melhores no “treinamento” de vários computadores sobre o que examinar e, em seguida, sintetizavam essas informações para uma estratégia geral. Equipes combinadas de humanos/computadores – conhecidas como “centauros”, – estavam jogando o mais alto nível de xadrez já visto. Se a vitória do Deep Blue sobre Kasparov sinalizou a transferência de poder do xadrez dos humanos para os computadores, a vitória dos centauros sobre o Hydra simbolizou algo ainda mais interessante – humanos capacitados para fazer o que fazem melhor sem o pré-requisito de anos de reconhecimento especializado de padrões.

A principal descoberta de Christopher Conolly, consultor de psicologia, foi que, no início de suas carreiras, aqueles que mais tarde fizeram transições bem-sucedidas tiveram um treinamento mais amplo e mantiveram vários “fluxos de carreira” abertos, mesmo quando buscavam uma especialidade primária. Eles “viajaram em uma rodovia de oito pistas”, escreveu ele, em vez de cair numa rua de mão única com só uma pista. Tinham amplitude. Os que eram bem-sucedidos na adaptação foram excelentes em levar o conhecimento de uma atividade e aplicá-lo criativamente em outra, evitando o entrincheiramento cognitivo. Empregaram o que Hogarth chamou de “disjuntor”. Utilizaram experiências e analogias externas para interromper sua inclinação a adotar uma solução anterior que talvez não funcionasse mais. A habilidade deles era em evitar os mesmos padrões antigos.

2 – Como o mundo perverso foi criado

O efeito Flynn – o aumento das respostas corretas do teste de QI a cada nova geração no século XX – já foi documentado em mais de trinta países. Os avanços são surpreendentes: três pontos a cada dez anos. Colocando isso em perspectiva, se um adulto que ficou na média hoje fosse comparado aos adultos de um século atrás, ele estaria no percentual 98.

Pesquisas com milhares de adultos em seis países industrializados descobriram que a exposição ao trabalho moderno com resolução autodirigida de problemas e desafios não repetitivos estava correlacionada com o fato de ser “cognitivamente flexível”. Como Flynn faz questão de salientar, isso não significa que os cérebros tenham agora mais potencial inerente do que tinham uma geração antes, mas que os óculos utilitários foram trocados por óculos que classificam o mundo usando conceitos. Mesmo recentemente, dentro de algumas comunidades muito tradicionais ou ortodoxas que se modernizaram, mas que ainda impedem as mulheres de se envolverem em trabalhos modernos, o efeito Flynn ocorreu mais lentamente para elas do que para os homens na mesma comunidade. A exposição ao mundo moderno deixou-nos mais bem adaptados a complexidades, e isso se manifestou como flexibilidade, com profundas implicações para a amplitude de nosso mundo intelectual.

O grande desapontamento de Flynn é o grau em que a sociedade, e especialmente o ensino superior, respondeu à ampliação da mente impulsionando a especialização, em vez de concentrar o treinamento inicial no conhecimento conceitual e transferível.

Flynn realizou um estudo no qual comparou a média de notas de estudantes veteranos em uma das principais universidades estaduais dos Estados Unidos, do curso de Neurociência a Letras, de acordo com o desempenho em um teste de pensamento crítico.

O teste media a capacidade dos alunos de aplicar conceitos abstratos fundamentais de Economia, Ciências Sociais, Física e Lógica a cenários comuns do mundo real. Flynn ficou confuso ao descobrir que a correlação entre o teste de pensamento conceitual amplo e as notas era de quase zero. Nas palavras de Flynn, “as caraterísticas que significam boas notas [na universidade] não incluem capacidade crítica de qualquer significado amplo.

3 – Quando menos do mesmo é mais

A criatividade de Vivaldi foi facilitada por um grupo especial de músicos que conseguiam aprender rapidamente novas músicas numa variedade impressionante de instrumentos. Eles atraíam imperadores, reis, príncipes, cardeais e condes de toda a Europa que eram regalados com a música mais inovadora da época. Era um elenco só de mulheres conhecidas como as figlie del coro, literalmente, “filhas do coro”. Atividades de lazer como cavalgadas e esportes ao ar livre eram pouco frequentes na cidade flutuante; então, a música era o principal entretenimento de seus cidadãos. Os sons de violinos, flautas, trompas e vozes espalhavam-se pela noite saindo de cada barco e gôndola. E, numa época e lugar que ferviam com a música, as figlie dominaram por um século.

As melhores figlie tornaram-se celebridades europeias, como Anna Maria della Pietà. Um barão alemão declarou-a categoricamente “a melhor violinista da Europa”. Rousseau queria muito vê-las. Ele incomodou um patrono do ospedale sem parar até que este o levou para conhecer as musicistas. O patrono apresentou as mulheres, as sereias prodigiosas cuja fama havia se espalhado como um incêndio pela Europa – e Rousseau ficou chocado. Lá estava Sophia – “horrível”, escreveu Rousseau. Cattina – “ela só tinha um olho”. Bettina – “a varíola a havia desfigurado completamente”. “Quase todas elas tinham algum defeito impressionante”, segundo Rousseau.

As garotas e mulheres que causavam deleite aos ouvidos delicados não tinham vidas delicadas. A maioria de suas mães tinha trabalhado na vibrante indústria do sexo de Veneza e contraído sífilis antes de darem à luz e, por isso, as meninas tinham sido abandonadas no Ospedaledella Pietà, uma espécie de Santa Casa de Misericórdia, onde as meninas cresciam e aprendiam música.

Como os ospedali tinham instrumentos, a música era incluída na educação de dezenas de garotas. Assim elas poderiam tocar durante as cerimônias religiosas nas igrejas adjacentes. Os diretores dos ospedali notaram que havia mais gente nas igrejas e que as doações à instituição aumentavam de forma proporcional à qualidade da música das garotas.

Os ospedali encomendaram obras originais aos compositores. Num período de seis anos, Vivaldi escreveu 140 concertos exclusivamente para as musicistas da Pietà. Foi criado um sistema de ensino no qual as figlie mais velhas ensinavam as mais jovens, e estas ensinavam as iniciantes.

O programa musical da Pietá não era famoso pelo rigor. De acordo com uma lista dos diretores da Pietà, as lições normais acontecem às terças, às quintas e aos sábados. As figlie tinham liberdade para ensaiar quando quisesse. No começo do sucesso das figlie del coro, o trabalho e as tarefas ocupavam a maior parte do tempo. Assim elas só tinham permissão para estudar música por uma hora.

No entanto, a distribuição de esforços em diferentes instrumentos parece importante. As crianças identificadas como excepcionais [pela escola] acabam sendo aquelas que distribuíam seus esforços de maneira mais uniforme por três instrumentos”, acrescentaram psicólogos da pesquisa. Os alunos menos qualificados tendiam a dedicar mais tempo ao primeiro instrumento com que tiveram contato, como se não pudessem desistir de uma vantagem inicial percebida. Os estudantes excepcionais desenvolveram-se mais como as figlie del coro. “O modesto investimento em um terceiro instrumento valeu a pena para as crianças excepcionais”, concluíram os cientistas. 

4 – Aprendizado rápido e lento

Apesar das tiradas inteligentes da professora, fica claro que os alunos não entendem como esses números e letras [álgebra] podem ser úteis em qualquer lugar além da prova na escola. Quando ela pergunta onde as expressões variáveis podem ser usadas no mundo, alguém responde: “Quando você está tentando resolver problemas de matemática”. Ainda assim, os alunos descobrem como chegar às respostas certas em seus cadernos: interrogando a professora.

Nos Estados Unidos, cerca de um quinto das questões propostas aos alunos começava como um problema de “estabelecimento de conexão”. Mas, quando paravam de pedir dicas ao professor e resolviam os problemas, nenhum deles permanecia na categoria “estabelecimento de conexão”. Esse tipo de problema não sobreviveu às interações professor-aluno.

Como no golfe, a prática de procedimentos é importante em matemática. Mas, quando constitui toda a estratégia de treinamento em matemática, é um problema. “Os alunos não veem a matemática como um sistema”, escreveram Lindsey Richland e seus colegas. Eles a veem apenas como um conjunto de procedimentos. Da mesma forma que, quando perguntaram à aluna como as expressões variáveis se conectavam ao mundo, sua resposta foi que eram boas para responder a perguntas de matemática.

Kornell estava explicando o conceito de “dificuldades desejáveis”, obstáculos que tornam a aprendizagem mais desafiadora, mais lenta e mais frustrante no curto prazo, mas melhor no longo. O excesso de dicas, como as da aula de matemática da oitava série, faz o oposto; reforça o desempenho imediato, mas prejudica o progresso em longo prazo. Diversas dificuldade desejáveis que podem ser usadas na sala de aula estão entre os métodos mais rigorosos para melhorar o aprendizado, e a aplicada professora de matemática da oitava série acidentalmente subverteu todos eles com o interesse bem-intencionado em progresso perceptível de imediato.

5 – Pensar além da experiência

Em uma era em que a alquimia ainda era um método comum de análise de fenômenos naturais, Kepler preencheu o universo com forças invisíveis agindo por toda parte e ajudou a inaugurar a Revolução Científica. Sua documentação exaustiva de cada trilha tortuosa que seu pensamento percorreu é um dos grandes registros de uma mente passando por uma transformação criativa. Seria uma redundância dizer que Kepler pensava fora da caixa. Mas o que ele realmente fazia, sempre que se encontrava em um beco sem saída, era pensar completamente além do domínio em questão. Ele deixou um percurso vivamente iluminado com suas ferramentas preferidas para fazer isso, aquelas que lhe permitiram olhar de fora e para além da sabedoria que seus pares apenas aceitavam. “Eu amo, em especial, as analogias”, escreveu ele. “São minhas mestras prediletas, conhecedoras de todos os segredos da natureza… Todos deveriam fazer vasto uso delas.”

“Na minha opinião, nossa habilidade de pensar de forma relacional é uma das razões pelas quais dominamos o planeta”, disse Dedre Gentner, estudiosa do pensamento analógico e de Kepler. O pensamento analógico transforma o novo em algo familiar ou pega algo familiar e coloca-o sob uma nova luz, permitindo aos seres humanos raciocinarem sobre problemas nunca encontrados e em contextos desconhecidos.

Nossa inclinação natural em seguir a visão interna pode ser vencida recorrendo-se a analogias vindas da “visão externa”. Esta busca similaridades estruturais profundas com o problema em questão em problemas diferentes. A visão externa é profundamente contraintuitiva, pois exige que o responsável pela tomada de decisões ignore as características superficiais únicas do projeto em questão , nas quais ele é especialista, e procure analogias estruturalmente similares em outros lugares. Ela requer que a atitude mental passe de estreita para larga.

6 – O problema do excesso de garra

Os irmãos de Van Gogh sugeriram que tentasse a carpintaria ou procurasse empregos como barbeiro. A irmã achava que ele daria um ótimo padeiro. Ele era um leitor insaciável. Então, talvez, pudesse ser bibliotecário. Mas, das profundezas de seu desespero, ele voltou sua feroz energia para a última coisa que imaginava ser capaz de começar imediatamente. Sua carta seguinte ao irmão foi muito curta: “Estou escrevendo para você enquanto desenho e estou apressado para voltar ao trabalho”. Antigamente, aquele homem via o desenho como uma distração de seu objetivo de alcançar as pessoas com a verdade. Naquele momento, começou a buscar a verdade retratando as vidas à sua volta em desenhos. Ele tinha parado de desenhar à mão livre ainda criança, quando se dera conta de que era um péssimo desenhista. Então, começou bem no início, lendo um Guia do ABC do desenho.

Certo dia, carregou um cavalete e tintas a óleo – com as quais quase não tinha experiência – até uma duna de areia durante uma tempestade. Corria para dentro e para fora do abrigo, jogando e espalhando tinta sobre a tela a golpes de pincel, entre rajadas de vento que salpicavam o quadro com grãos de areia. Espremia as tintas direto do tubo sobre a tela quando necessário. A tinta de óleo viscosa e a velocidade necessária para aplicá-la sob a tempestade liberaram sua imaginação e sua mão das deficiências que o haviam acometido quando buscou o realismo perfeito. Mais de um século depois, seu biógrafo escreveria que, naquele dia, “[ele] fez uma descoberta surpreendente: sabia pintar”. E percebeu isso: “Achei imensamente prazeroso”, escreveu para o irmão.

Vários artistas, como Van Gogh, parecem ter se sobressaído apesar de seus inícios tardios. Seria fácil escolher histórias de desenvolvimento tardio excepcional como superação de obstáculos. Mas eles não são exceções devido a seu início tardio, e esses inícios tardios não diminuíram suas probabilidades de sucesso. Os inícios tardios foram parte de seu sucesso final.

7 – Flertando com seus possíveis eus

Diversidade era excelente, disseram a Frances Hesselbein, mas aquilo era coisa demais, cedo demais. Era preciso corrigir os problemas organizacionais para depois se preocupar com a diversidade. Mas Hesselbein decidira que a diversidade era o principal problema organizacional, na instituição que recebera. Então, foi ainda mais longe. Reuniu uma equipe de liderança que representava seu público-alvo e modernizou tudo, desde a declaração de missão até os distintivos de mérito. Agora, haveria divisas para matemática e computação. Hesselbein tomou a decisão angustiante de vender acampamentos que voluntários e funcionários adoravam desde a juventude, mas que já não eram mais usados.

Graças ao YouTube, o “teste do marshmallow” pode ser o experimento científico mais famoso do mundo. Na verdade, foi uma série de experimentos iniciados na década de1960. A premissa original era simples: um examinador coloca um marshmellow (ou um biscoito ou um pretzel) na frente de uma criança da educação infantil. Antes de deixar a sala, o examinador diz à criança que, se ela conseguir esperar até que ele retorne, ganhará aquele marshmellow e mais um. Se a criança não conseguir esperar, pode comer o marshmellow à sua frente. A criança não é informada do tempo que durará a espera (de quinze a vinte minutos, dependendo da idade). Então, ela só deve resistir se quiser a recompensa máxima.

O psicólogo Walter Mishel e sua equipe de pesquisa acompanharam as crianças anos mais tarde e descobriram que aquelas que tinham conseguido resistir por mais tempo tinham probabilidade de serem bem-sucedidos social, acadêmica e financeiramente, e era menos provável que se tornassem usuárias de drogas.

O conselho de Herminia Ibarra, professora de comportamento organizacional, é quase idêntico ao planejamento de curto prazo registrado pelos pesquisadores do Dark Horse. Em vez d e esperar uma encouraçada primeira resposta à questão “Quem realmente quero ser?”, seu trabalho indicou que é melhor ser um cientista de si mesmo, fazendo perguntas menores que possam ser testadas de fato: “Quais de meus vários eus possíveis devo começar a explorar agora? Como posso fazer isso?”. Flerte com seus possíveis eus. Em vez de um grande plano, encontre experimentos que possam ser realizados rapidamente. “Teste e aprenda”, Ibarra disse. “Não planeje e implemente.”

8 – A vantagem do outsider

Chamada de InnoCentive, a empresa é uma facilitadora para companhias de qualquer campo, atuando como “rastreadora” e sendo paga para postar “desafios” e recompensas para “solucionadores” não convencionais. Pouco mais de um terço dos desafios foram completamente resolvidos, uma porção notável, já que a InnoCentive foi selecionada para encontrar soluções para problemas que frustraram os especialistas que os publicaram. Ao longo do caminho, a InnoCentive percebeu que poderia ajudar os clientes a adaptar suas postagens para tornar a solução mais provável. O truque: estruturar o desafio de tal forma que se tornasse atraente para uma gama diversificada de solucionadores de problemas. Quanto mais atraente fosse o desafio não apenas para os cientistas, mas também para advogados, dentistas e mecânicos, maior a probabilidade de que fosse resolvido.

Bingham chama isso de pensamento “não convencional”: encontrar soluções em experiências muito além do profissional treinado e direcionado para o problema em si. A história está cheia de exemplos que mudaram o mundo.

Aliás, a Nasa foi incapaz de prever tempestades de partículas solares, material radiativo expelido pelo Sol que pode prejudicar gravemente os astronautas e os equipamentos, dos quais dependem. Os físicos especializados estavam compreensivelmente céticos de que os amadores de fora pudessem ajudar, mas depois de três décadas às voltas com o problema, não tinham nada a perder e, em 2009, a Nasa divulgou a questão por meio da InnoCentive. Em seis meses, Bruce Cragin, engenheiro aposentado da Sprint Nextel e morador da zona rural de New Hampshire, resolveu o problema usando ondas de rádio captadas por telescópios.

Quanto mais informações os especialistas geram, mais oportunidades existem para os diletantes curiosos contribuírem ao fundir as vertentes de dados amplamente disponíveis, mas díspares – conhecimento público não divulgado, como Don Swanson chamou. Quanto maior e mais facilmente acessível a biblioteca do conhecimento humano, maiores as chances de os clientes que têm demandas fazerem conexões na vanguarda da pesquisa. Uma empresa como a InnoCentive, que à primeira vista parece totalmente contraintuitiva, deve tornar-se ainda mais frutífera conforme a especialização se acelera.

9 – Pensamento lateral com tecnologia obsoleta

No início dos anos 1970, os carros de brinquedos controlados por meio de rádio eram populares, mas brinquedos com a tecnologia necessária para serem operados por controle remoto podiam custar até um mês de salário. Então, era um passatempo reservado a adultos. Como sempre fazia, Yokoi ponderou uma maneira de democratizar os carrinhos de controle remoto. Assim, ele levou a tecnologia para o passado. O gasto devia-se à necessidade de múltiplos canais de controle de rádio. Os carros começaram com dois canais, um para controlar a saída do motor e um para o volante. Quanto mais funções o brinquedo tivesse, mais canais seriam necessários. Yokoi reduziu a tecnologia ao mínimo absoluto, um carro operado por um controle remoto de canal único, que só podia virar à esquerda. Nome do produto: Lefty RX. Custou menos de um décimo do valor de qualquer brinquedo de controle remoto, e era incrível para corridas anti-horário, mesmo quando precisava enfrentar obstáculos, porque as crianças aprenderam facilmente a desviar dos problemas.

Numa pesquisa, os criadores individuais começaram com baixa taxa de inovação em relação às equipes – eram menos propensos a produzir um sucesso –, mas, à medida que sua experiência se ampliava, eles realmente superavam as equipes. Um criador individual que tivesse trabalhado em quatro ou mais gêneros era mais inovador do que uma equipe cujos membros possuíam experiência coletiva em todo o mesmo número de gêneros. Taylor e Greve sugeriram que “os indivíduos são capazes de uma integração mais criativa de suas diversas experiências do que as equipes”.

10 – Enganado pela especialização

O especialista médio era terrível fazendo previsões. As áreas de especialização, os anos de experiência, os títulos acadêmicos e mesmo (para alguns deles) o acesso a informações sigilosas; nada disso fazia diferença. Eles eram ruins nas previsões de curto prazo, ruins nas previsões de longo prazo e ruins nas previsões sobre qualquer área. Quando os especialistas declararam que determinado evento futuro era impossível ou quase impossível, mesmo assim tal evento ocorria em 15% das vezes. Quando declararam que algo era certo, tal evento deixou de acontecer em mais de um quarto das vezes. O provérbio dinamarquês advertindo que “É muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro” está correto. Os diletantes que foram colocados junto com os especialistas não eram melhore clarividentes, mas, pelo menos, eram menos propensos a declarar eventos futuros como impossíveis ou como certos, o que os deixou com menos erros risíveis dos quais se expiar.

Mais incrível ainda, os ouriços [os que sabem “coisas grandes”] se saíam especialmente mal nas previsões em longo prazo em suas áreas de especialidade. E eles ficavam piores conforme acumulavam mais credenciais acadêmicas e experiência em suas áreas. Quanto mais informações tinham a seu dispor, mais fácil era para eles encaixarem qualquer história em suas visões de mundo. Isso dava aos ouriços uma notável vantagem. Ver todos os eventos do mundo através de seu buraco de fechadura preferido tornava fácil criar histórias atraentes sobre o que quer que ocorresse – e contar tais histórias com uma autoridade inabalável. Em outras palavras, eles eram ótimos em TV.

11 – Aprendendo a abandonar suas ferramentas conhecidas

Em quatro incêndios diferentes nos anos 1990, 23 bombeiros de elite desobedeceram a ordens de abandonar seu equipamento e morreram com ele. Mesmo quando Rhoades enfim deixou sua motosserra, ele sentiu como se estivesse fazendo algo não natural. Karl Weik observou fenômenos similares entre marinheiros que ignoraram ordens para tirar os sapatos com salto de metal ao abandonar o navio e se afogaram ou furaram os botes salva-vidas; pilotos de caça em aviões avariados desobedecendo ordens de ejetar; e Karl Wallenda, o mundialmente famoso equilibrista que morreu em uma queda de 35 metros quando perdeu o equilíbrio e agarrou primeiro o bastão, em vez de se agarrar à corda bamba sob ele.

Werner von Braun, que liderou o desenvolvimento do foguete que impulsionou a missão lunar, no centro de Voos Espaciais de Marshall, baseava o rígido processo da Nasa com uma cultura individualista, que encorajava a discordância constante e a comunicação entre diferentes áreas. Von Braun iniciou as “Notas de Segunda”; toda semana os engenheiros enviavam uma única página de anotações sobre seus problemas mais prementes. Ele escrevia comentários nas margens e, então, fazia circular a compilação completa. Todos viam o que as outras divisões estavam fazendo, e como era fácil levantar novos problemas. As Notas de Segunda eram rigorosas, mas informais.

Em 1974, William Lucas assumiu a chefia do Centro de Voos Espaciais Marshall. Lucas, segundo o historiador Allan McDonald, transformou as Notas de Segunda de Von Braun em um sistema de comunicação exclusivamente de baixo para cima. Não respondia às notas e elas não circulavam. Elas acabaram transformadas em formulários meramente burocráticos. A qualidade das notas despencou.

12 – Amadores propositais

Oliver Smithies atuava como professor da Universidade da Carolina do Norte quando conversamos. Ele faleceu nove meses depois, aos 91 anos. Até o fim da vida, encorajou seus alunos a pensar lateralmente, expandir suas experiências e abrir seu próprio caminho na busca por um trabalho adequado. “Eu tento ensinar às pessoas: ‘Não se torne um clone de seu orientador de doutorado”, disse ele. “Leve suas habilidades para algum lugar em que não esteja mexendo com o mesmo tipo de coisa. Leve suas habilidades e aplique-as a um problema novo ou pegue seu problema e tente adquirir habilidades completamente novas.”

Tu Youyou, em 2015, se tornou a primeira (e até o momento, a única) pessoa de nacionalidade chinesa a receber o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina e a primeira mulher chinesa a recebê-lo em qualquer categoria. Tu é conhecida como “a professora dos três nãos”: não é membro da Academia Chinesa de Ciência, não tem experiência com pesquisa fora da China e não tem título de pós-graduação. Antes dela, outros cientistas já haviam relatado o teste com 240 mil compostos diferentes na busca de cura para a malária. Tu tinha interesse tanto na Medicina moderna quanto em História e se inspirou em uma pista que encontrou na receita de um medicamento feito a partir de uma árvore asiática chamada Artemisia annua, escrita por um alquimista chinês do século IV. Não há tecnologia mais obsoleta do que essa. Isso a levou a experimentar (primeiro nela mesma) com um extrato daquela árvore chamado artemisinina. Hoje, a artemisinina é considerada um dos mais importantes medicamentos descobertos pela medicina.

Conclusão

Finalmente, lembre-se de que não há nada inerentemente errado com a especialização. Nós nos especializamos em um grau ou outro, em um ponto ou outro. Minha centelha inicial de interesse nesse tópico brilhou ao ler artigos virais e ao assistir a palestras que ofereciam a superespecialização precoce como um tipo de truque, uma receita para não perder tempo acumulando experiências diferentes e experimentando coisas novas. Espero ter acrescentado ideias a essa discussão, porque a pesquisa em diversas áreas sugere que o devaneio mental e a experimentação pessoal são fonte de poder, e que a vantagem inicial é superestimada. Como o juiz da suprema corte Oliver Wendell escreveu há cem anos sobre a livre troca de ideias: “É uma experiência, assim como todo o resto da vida”.

Ficha técnica:

Título: Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas

Título original: Why Generalists Triumph in a Specialized World

Autor: David Epstein

Primeira edição: GloboLivros

Imagens: Freepik, Stock, Unsplash.

Resenha:

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