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Como está o seu pescoço?

A pandemia da Covid-19 me fez mergulhar em duas novas paixões: a ioga e o surfe. Spoiler: esse texto não é sobre esporte; é sobre você.

Por Dani Graicar

Praticando esses dois novos e desafiadores esportes, encontrei equilíbrio, força, resiliência, uma boa dose de paz e uma hérnia na cervical. Depois da ultrassonografia, o médico constatou: “seu esporte é o tênis? Então fique nele, invente menos coisas e faça musculação pro seu corpo aguentar melhor esse esporte que você ama”. É, depois dos 40 e poucos, a gente precisa inventar menos moda para o corpo.

Eu sigo enfrentando a dor, confesso, mas dando muito mais atenção ao meu pescoço. Já reparou o peso que ele carrega? Já experimentou o prazer das invertidas da ioga, provocando você a ver o mundo de cabeça pra baixo, enquanto o sangue esquenta seu cérebro? Já ergueu a cabeça ao estilo “tartaruga” pra quebrar a arrebentação no mar? Já olhou bem pra cima enquanto a bolinha desce e você ajusta o braço pra dar um belo smash? Bom, se você nunca fez isso, eu recomendo.

Mas hoje o papo é mais amplo do que o esporte: é sobre o seu pescoço.

O fato é que, pratique você o esporte que praticar ou nenhum deles, o seu pescoço precisa de socorro.

Acabo de passar quatro dias no WebSummit, maior evento global de Tecnologia e Inovação. Sediado em Lisboa, o festival mistura conteúdo (mais de 1,2 mil palestrantes), pitches de mais de 2,3 mil startups e mais de 340 empresas expondo seus negócios.

No público, mais de 71 mil pessoas, de 160 países, sendo que o Brasil teve uma presença bem relevante este ano, como tem em todos os festivais similares no mundo.

Assisti a mais de 20 palestras curtas, de 20 minutinhos, e a mais de 60 pitches de startups. Mas o segredo desse evento, pasmem, está no pescoço.

Eu andava pelo corredor em velocidade frenética, respondendo às mensagens de WhatsApp enquanto me deslocava de uma palestra a outra, quando esbarrei num cliente que eu tentava encontrar há meses, em São Paulo. Olhando pra baixo, quase perco essa chance que a física se encarregou de me dar. Falamos, resolvemos alguns pontos e, a partir de então, eu parei de digitar enquanto andava.

Pelos corredores de eventos assim, só há gente interessante, com suas histórias curiosas e batalhadoras. Pelas filas, mais gente incrível, mais oportunidades de ampliar meu repertório.

O exercício do pescoço é tão importante e cada vez mais raro. Olhar para o lado, prestar atenção no que não estava no trajeto programado, ajustar a rota, abrir-se para a serendipidade do acaso, conhecer as dores de outros seres humanos, mostrar empatia, sorrir para um estranho, engatar um papo despretensioso…

Não sei você, mas, pra mim, o estresse é um rio que deságua no pescoço. É lá que tudo se acumula, que a dúvida entala, a angústia trava, a inquietação encontra o medo.

Um pescoço travado é mais que a certeza de um sono ruim ou uma cabeça sem sustentação sólida. É a incapacidade de conhecer o novo, é a inflexibilidade para mudar o caminho previsto, é a certeza do fracasso.

Depois de dias refletindo, o meu aprendizado no WebSummit, que estendo a você é: exercite seu pescoço do jeito mais natural que o ser humano sabe fazer. Aprenda a reparar nos outros, alongue suas ideias, prolongue seus pensamentos, esqueça o celular e preste atenção ao que está a poucos palmos do seu nariz.

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